Com os olhos vendados de fome ele a toca com as pontas dos dedos em chamas. Já rezou hoje? Não, claro que não. Caminhavam em paz perto do velho que vendia ervas curandeiras que, como se ninguém soubesse, colhia do terreno de seu próprio quintal raiz por raiz, folha por folha de coisa qualquer pra vender como sene ou capim santo. Enquanto ele mascava uma raiz forte os dois passavam, bocejavam e esbravejavam com o vento que trazia poeira na cara. Uns três passos à frente, e uma senhora no chão com os filhos bem postos. Com violão de plástico e saia bordada pediam moedas e sonhos que de vez em quando caíam esparramados balançando o som da latinha velha de rótulo rasgado que girava girava girava mas continuava firme em pé, até a próxima moeda. Sorria pro moço, disse a senhora, que se enganou ao pensar que a boa aparência tiraria um centavo do bolso rasgado. Nem pro algodão doce, seu merda! Sentindo a vida na ponta dos dedos buscava o calor da cintura dela. A igreja soltava gente nessa hora. O sino expulso no ar chegava aos ouvidos dele fazendo-o enfiar o dedão no cós apertado da saia dela enquanto assovios de bêbados caiam no chão. É a hora do governo abrir mais a economia, seu Zé, que o preço dessa salsicha tá de arrancar o fígado. Sim, Manéo, acho que agora a pinga há de descer sozinha sem forro no estômago. Não mandei tu tê nascido numa economia tão periférica feito a nossa. É, mal-feita a nossa. Rindo feito crianças, apertam o passo. Chegam correndo antes que o povaréu deixe o padre quieto. Pelas escadas dos fundos, sobem até a torre do sino, que continua a tilintar arrepio de sopro no cangote dos fiéis, bem ali, no quase-ouvido. E ela arranca a saia e o desejo escorre, e
enfim
enfim