17 juillet, 2008

ah, meu samba!

A tarde ia ficando tranquila na mesma medida em que os pés dele subiam os degraus do aeroporto. Riscado de gis na pele ficou o gosto de um tapa bem dirigido e de mordidas que marcaram o peito e as costas dos meses à fio, no frio.

A cidade era um sentido demasiado melancólico. As luzes de fundo, no alto, escondiam numa triste belleza a pobreza e pouca pressão na água, que subia nas pontas dos pés, à força, para pingar nas caixas d'águas singelas gotas de luta. lá vai Maria, lá vai Maria!

Brigavam, verdade. Num porvir político ingênuo. Numa visão maniqueísta de soluções plausíveis para a jurisdição de um anillo, que não ultrapassava as linhas limítrofes de seu egoísmo pra não sei quê.

Irritantemente sólidos, os dois restavam na quina da praça. Lugar dos loucos e dos malvivientes . Que não eram senão gente sofrida e sem o ânimo de seguir adiante com essa brincadeira crua que é a vida. Declaradamente leves, filtravam o que viveram e sentiram, com lentes que conjugam de uma só vez esferas de mundos logicamente inconciliáveis. Lugar de Estamiras e Genis, de retalhos, pashminas e rendas, estórias e fatos, conceitos e preconceitos. Dicotomias plurais. Diferentes na mesma repetição, de vista jogada sobre o mundo.

Na quentura dessa mesma tarde ele desceu os degraus do aeroporto. No sentido do desencontro da canção. As lástimas nas costas e no peito lacrimejaram e o fizeram retornar com a mochila leve. Ela ficou esperando o vôo sozinha, que chegou em forma de bilhete nas mãos de um estranho dizendo:

Prefiro choro à samba!