28 janvier, 2008

Clichê


Assim sem mote segui a linha do dia. Parecia perder aos poucos as letras ditadas por cronos enquanto escorregava com a bunda numa ladeira molhada e lisa. Em baixo, la no fim, onde ela parava e fazia a curva, passei reto com a cara em galhos secos, então uma casa de tijolos à vista me gritava novidades engessadas no tempo. Parecia que suas paredes sorriam. Na verdade meus olhos é que sopravam a poeira deixando bonito. Pé aqui outro acolá, sem cuíca nem pandeiro, segui outra vez. Morria de sede, vibrava de fome. A porta, abri com cuidado de rã, senti o cheiro mofado de tempo que ali não servia mais que para decorar à sua maneira o ambiente de um jazz mal lavado. Me atrevi só à sala rendendo-me aos encantos redondos das raizes que subiam zelosamente pela estante com discos, do chão ao teto. A taça de um cristal bem fino, ainda ali em prontidão com digitais congeladas de uma boca sedenta. Por cima do meu próprio ombro vi, de lado, a capa de um livro de Goethe, letras negras e manchas vermelhas. Com a vela que estava na mesa de centro nas mãos pude ler em arrepios:

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"É por você, Carlota, que derramo depois de seu sangue o meu, completando a tela que começamos juntos. Nosso expressionismo absurdamente realista. Pronta, a deixei na parede esquerda do quarto de cima. "