27 mai, 2008

Le Mépris



O encostar da cabeça cabisbaixa na porta prende um silêncio cínico, desses que roem o peito por dentro. Os fios bem penteados da peruca preta gritam um devir caricato na cena dizendo que ali um desejo se esconde abertamente frente aos olhos calejados, que não vêem nem voam, do homem que pensa em finanças exatas para o apartamento que lhes cabe através da venda de letras estupidamente esculpidas para um ego predador. É um rascunho, um pontilhado mal feito que faço, eu sei. Um clichê desenhado em azul e vermelho pelas mãos que derramam imagens em versos, ou prosa, neste caso. Passeio com quase a mesma facilidade por Buñuel, Kar Wai, Rhomer, Glauber e Vardà, mas retornar ao senhor Godard é um questão de fôlego. Um fôlego ardido que prende a respiração e machuca. Ruir com pré-conceitos acerca do cinema e sair do comum quando o que se tem em mãos é quase sempre copias e repetições nas quais não se incluem a diferença é um exercício de suor e pesar contra a inércia de uma pipoca nas mãos e a cabeça vazia de histórias, prestes a ser preenchida pela boca do contador que está por detrás das folhas do roteiro. Inércia que acompanha os pés, na maioria das vezes, no caminhar até as salas de cinemas que trocaram a imponência da amplitude pela glória de tecnologia em termos de som e imagem reproduzidos em diversas salas pequenas ao bel prazer das grandes distribuidoras cinematográficas. Voltar a Godard é como entrar em uma sala antiga, seja a do Cine Brasília ou a do Cine Bella Vista e cheirar um outro espaço existencial. Sentir na projeção as digitais quentes do diretor, ali impregnadas, esculpindo a cena dando-lhe forma, bem captada e pintada pelo diretor de fotografia cujas cores que elegeu sabem, por si só, dizer em consonância com as expressões faciais de algumas palavras o sentimento ao tom da cena.

Le Mépris foi, neste rumo, o clichê mais sensível que já toquei. A peruca negra de Camille pontua, com seu silêncio, vazios angustiantes que percorrem todo o filme. Seja nos questionamentos da mesma, numa insegurança nua em cima da cama, seja na busca insandecida do produtor americano por uma boa réplica cinematográfica de Odisséia, de Homero. Tentando dominar o clássico com seu dinheiro, talvez. Vazio do roteirista que tenta vender-se aos desejos egoístas do produtor, mas que não consegue e falha de uma só vez na vida artística e amorosa, provocando desejo, desprezo e ódio. Se é que deve haver uma exata distinção desses dois espaços existenciais da vida de um homem. A bem da verdade, creio que não, são agenciamentos e se tocam e se mesclam e se separam dilascerando-se fazendo o corpo sofrer com angústias e lágrimas e choros. Numa contiguidade absurdamente fluida.

Ainda que o silêncio percorra por diversos âmbitos as cenas azuladas de Le Mépris e puxe Brigitte pelas mãos levando-a em uma toalha vermelha ao sofá para sentir-se só, a lucidez da presença de Fritz Lang na direção da suposta Odisséia mostra a frieza com que o produtor matará, a golpes de rolos jogados ao chão, a própria tragédia, aos moldes nitzscheanos. As falas de Fritz determinam pontos de reflexões que alfinetam de uma só vez, a meu ver, o entrelaçar de espaços de silêncios, tristezas e olhares perdidos.

O filme acaba. Sempre acaba. E a saliva resta de forma nua em minha boca. E corro pra ver Godard lendo Win Wenders, em um video de 1982.

et voilà