
O encostar da cabeça cabisbaixa na porta prende um silêncio cínico, desses que roem o peito por dentro. Os fios bem penteados da peruca preta gritam um devir caricato na cena dizendo que ali um desejo se esconde abertamente frente aos olhos calejados, que não vêem nem voam, do homem que pensa em finanças exatas para o apartamento que lhes cabe através da venda de letras estupidamente esculpidas para um ego predador. É um rascunho, um pontilhado mal feito que faço, eu sei. Um clichê desenhado em azul e vermelho pelas mãos que derramam imagens
Le Mépris foi, neste rumo, o clichê mais sensível que já toquei. A peruca negra de Camille pontua, com seu silêncio, vazios angustiantes que percorrem todo o filme. Seja nos questionamentos da mesma, numa insegurança nua em cima da cama, seja na busca insandecida do produtor americano por uma boa réplica cinematográfica de Odisséia, de Homero. Tentando dominar o clássico com seu dinheiro, talvez. Vazio do roteirista que tenta vender-se aos desejos egoístas do produtor, mas que não consegue e falha de uma só vez na vida artística e amorosa, provocando desejo, desprezo e ódio. Se é que deve haver uma exata distinção desses dois espaços existenciais da vida de um homem. A bem da verdade, creio que não, são agenciamentos e se tocam e se mesclam e se separam dilascerando-se fazendo o corpo sofrer com angústias e lágrimas e choros. Numa contiguidade absurdamente fluida.
Ainda que o silêncio percorra por diversos âmbitos as cenas azuladas de Le Mépris e puxe Brigitte pelas mãos levando-a em uma toalha vermelha ao sofá para sentir-se só, a lucidez da presença de Fritz Lang na direção da suposta Odisséia mostra a frieza com que o produtor matará, a golpes de rolos jogados ao chão, a própria tragédia, aos moldes nitzscheanos. As falas de Fritz determinam pontos de reflexões que alfinetam de uma só vez, a meu ver, o entrelaçar de espaços de silêncios, tristezas e olhares perdidos.
O filme acaba. Sempre acaba. E a saliva resta de forma nua em minha boca. E corro pra ver Godard lendo Win Wenders, em um video de 1982.
et voilà